Biografia de Jigme Lingpa







Rigdzin Jigme Lingpa (Tibete, séc. 18)

por Tulku Thondup (“Masters of Meditation and Miracles”)

Rigdzin Jigme Lingpa (Tibete, 1730 ~ 1798) foi a encarnação (tulku) tanto do rei Trisong Detsen (ano 790 ~858) quanto de Vimalamitra. Também é conhecido como Khyentse Özer, Raios de Sabedoria e Compaixão. Ele descobriu o vasto e profundo ciclo de ensinamentos Longchen Nyingthig como um tesouro da mente.

Em “A profecia secreta de Lama Gongdu”, descoberto por Sangye Lingpa (ano 1340 ~ 1396), Guru Rinpoche anteviu a vinda de Jigme Lingpa 700 anos antes:

No sul [do Tibete] haverá um tulku chamado Özer.
Ele deverá liberar seres através dos profundos ensinamentos de Nyingthig.
Quem quer que se conecte a ele, será guiado à terra pura dos vidhyadharas por ele.

Jigme Lingpa nasceu em uma vila no início da manhã do 18º dia do 12º mês do ano do Pássaro de Terra do 12º Rabjung (1730) no vale Chongye no sul do Tibete, não muito longe das tumbas reais da dinastia Chögyal, conhecidas como “tumbas vermelhas”. Embora seus pais sejam descendentes de famílias nobres do passado, eram humildes, o que Jigme Lingpa reconhece como uma bênção que o permitiu adotar a vida espiritual sem ter que passar por obrigações sociais e ostentação aristocrática.

Desde a infância ele lembrava de suas encarnações anteriores, como o grande terton Sangye Lama (1000 ~ 1080?). Um de seus dentes tinha a marca de uma sílaba da fala do Buda AH, fato reconhecido como um sinal de que ele era a reencarnação de Vimalamitra. Além disso, como indicado em uma profecia escrita, ele tinha 30 pequenas verrugas avermelhadas na forma de um vajra na altura do coração, e linhas na forma de uma letra HYA ou HRIH, a sílaba-semente da deidade Hayagriva, em seu polegar direito. Desde a infância sua mente era desapegada dos prazeres mundanos, e ele era extraordinariamente compassivo, inteligente e corajoso.

Ele reconheceu ser a 13ª encarnação de Gyalse Lhaje, o receptor dos ensinamentos Kadü Chökyi Gyatso de Duru Rinpoche, ambos tertons. Além disso, na prece para sua linhagem, que ele escreveu para seus discípulos, Jigme Lingpa menciona muitas de suas vidas passadas e uma das futuras, do modo como as viu:

[1] Samantabhadra, onipresente senhor do samsara e nirvana, o continuum da base, a própria essência da natureza Buda,
[2] Então, [a união de] compaixão e vacuidade surgiu como Avalokiteshvara, e
[3] Prahevajra, a ti eu rezo.
[4] Então, manifestou-se como o filho do Rei Krikri na presença do Buda Kashyapa,
[5] Nanda, o irmão mais novo de Buda,
[6] Akarma[ti], uma manifestação do [Rei] Songtsen Gampo, e
[7] [Rei] Trisong Detsen, a ti eu rezo.
[8] [Mahasiddha] Virvapa [da Índia], [9] Princesa Pemasal,
[10] Gyalse Lhaje, o Senhor em pessoa,
[11] Trime Kunden [da Índia], [12] Yarje Orgyen Lingpa [1323 ~ ?],
[13] Daö Zhönu [1079 ~1153, Kagyü] e [14] Trakpa Gyaltsen [1147 ~ 1216, Sakya], a ti eu rezo.
[15] Então, Longchen Rabjam [1308 ~ 1363], a manifestação do próprio Mahapandita Vimalamitra,
[16] Ngari Penchen [1487 ~ 1542], [17] Chögyal Phüntsok [séc. 16, filho de Drikung Rinchen Phüntsok],
[18] [Changdak] Tashi Tobgyal [1550 ~ 1602?], [19] Dzamling Dorje [de Kongpo] e
[20] Jigme Lingpa [1789 ~ 1798], a ti eu rezo.
[21] Depois disso, através da manifestação de Yeshe Dorje [1800 ~ 1866].

Aos seis anos, como monge noviço ele entrou no monastério Palri (Shriparvata) no vale Chongye, o assento de Trangpo Terchen Sherab Özer (1517 ~ 1584). Tsogyal Tülku Ngawang Lobzang Pema deu a ele o nome Pema Khyentse Özer.

Entre a idade de seis a 13 anos, gastou mais tempo — com ele mesmo diz — brincando com os noviços de sua idade do que com os estudos. Ele vivia a vida de um noviço pobre com poucas coisas para facilitar o aprendizado, lidando com tutores-disciplinadores muito estritos ano após ano. No entanto, a intensidade de seu zelo pelo Darma, sua devoção espontânea a Guru Rinpoche, e sua compaixão inata por todos os seres vivos, especialmente animais, sustentaram-no e fizeram sua infância extremamente alegre e significativa. Embora parecesse um noviço insignificante, sua vida interior era repleta de riquezas. Seus dias se preenchiam com realizações meditativas e visões puras inspiradoras. Suas noites se fundiam em sonhos de experiências espirituais e visões.

Em tais circunstâncias, ele obteve maestria em gramática, lógica, astrologia, poesia, história, medicina e diversas escrituras de sutra e tantra. Com a exceção do recebimento das transmissões de iniciações esotéricas, ele não sentia necessidade de ter um mestre ou estudar qualquer assunto intelectual em detalhes, do modo como outros estudantes sérios estavam fazendo. Ele aprendeu diversas disciplinas meramente ouvindo pedaços das aulas de outros alunos e passando o olho pelos textos.

Muitos mestres se tornaram eruditos após estudar e, então, tiveram realização ao meditar. Jigme Lingpa já nasceu erudito como o resultado de ter previamente despertado a realização da sabedoria em si mesmo. Contudo, como manifestação externa disso, sua final e completa erupção de sabedoria ilimitada só foi acontecer muito depois, quando ele teve as visões de Longchen Rabjam, com 31 anos. Ele escreve:

Por natureza, eu sentia-me muito feliz quando podia estudar a língua, textos seculares, escrituras sagradas e seus comentários, ou os ensinamentos Vajra sobre a natureza última. Estudava-os com grande respeito, tanto a luz do dia quando com lamparinas. Mas praticamente não tive a oportunidade de desenvolver o conhecimento estudando com um mestre, mesmo que por um dia apenas. No entanto, no glorioso Samye Chimphu, com três visões do corpo de sabedoria de Longchenpa, e por receber as bênçãos através de diversos sinais, meu karma [da erudição-sabedoria] despertou [das profundezas] da Grande Perfeição.

De Neten Künzang Özer ele recebeu sua primeira transmissão principal, os ensinamentos do Trölthik Gongpa Rangdröl, descobertos por Trengpo Terchen Sherap Özer (também conhecido como Drodül Lingpa), o ciclo do Lama Gongdü de Sangye Lingpa (1340 ~ 1396), e os “Sete Tesouros” e “Três Carruagens” de Longchen Rabjam (1308 ~ 1363).

Aos 13 anos, Jigme Lingpa encontrou o grande terton Rigdzin Thukchok Dorje e, instantaneamente, vivenciou intensa devoção, que despertou sua mente de sabedoria. Dele, recebeu as transmissões e instruções sobre Mahamudra e outros ensinamentos. Thukchok Dorje se tornou seu professor-raiz; Jigme Lingpa recebeu suas bênçãos em visões mesmo após a morte do mestre. Ele também recebeu transmissões de muitos outros mestres, incluindo Thekchen Lingpa Droton Tharchin (também conhecido como Trime Lingpa, 1700 ~ 1776), seu tio Dharmakirti, o 17º Chakzampa Tendzin Yeshe Lhundrup, Thangdrok Tulku Pema Rigdzin Wangpo de Kongpo, Trati Ngakchung Rigpe Dorje (Kong-nyon) de Kongpo, e Mon Dzakar Lama Dargye.

No início de seus 28 anos, ele começou um retiro estrito de três anos no monastério Palri, com sete votos a serem seguidos por um total de sete anos. Esses votos nos mostram a importância de aperfeiçoar-se a si mesmo antes de sair para ajudar os outros e cumprir o objetivo da vida. Seus sete votos eram os seguintes:

(1) Ele não entraria na casa de nenhuma pessoa leiga nem teria nenhum tipo de entretenimento. (2) Mesmo se estivesse vivendo em uma comunidade, ele não receberia muitas pessoas (em seu quarto) nem lideraria qualquer encontro que estimulasse raiva ou apego. (3) Ele não se corresponderia com ninguém, e nenhuma palavra vinda de fora entraria. (4) Ele manteria uma vida de austeridade, se abstendo de trocar os ensinamentos do Darma por qualquer ganho material. (5) Ele iria se abster de quaisquer atividades que provocam distração, dedicando seus esforços apenas às dez atividades do treinamento no Darma. (6) Ele viveria com simples meios de sustento, sem descuidadamente desfrutar de quaisquer materiais que tenham sido oferecidos com fé. (7) Ele não executaria nenhuma das quatro ações [rituais de pacificação, prosperidade, controle e exorcismo] e dedicaria todas atividades à liberação do samsara.

Ele concentrou sua meditação nos estágios do desenvolvimento e consumação, baseados no Trolthik Gongpa Rangtrol. Sua consciência plena permitiu que ele protegesse sua mente de distrações na meditação, mesmo pela curta duração de um estalar de dedos. Quando ele leu “Os Sete Tesouros” de Longchenpa, eles responderam todas as perguntas que tinha sobre suas experiências meditativas internas.

Ao progredir pelos estágios de realização, experimentou diversos sinais físicos e mentais de sucesso. Ele teve visões de muitas lamas e deidades, incluindo Guru Rinpoche, Yeshe Tsogyal, Manjushrimitra e Humkara, que despertaram várias etapas de sua sabedoria interna. Repentinamente, ele descobriu que dentro de si, o ponto de referência de todas suas experiências mentais foi desenraizado. Ele tinha ganhado domínio sobre o processo de suas energias kármicas. Todas as cavernas das aparências ilusórias (ou seja, os objetos em que a mente conceitual depende para forjar o samsara dualista) entraram em colapso total. Através da força da realização que despertou, ele pode rever muitas vidas passadas claramente. Mas todas essas experiências e visões estavam na natureza de unidade de sua mente realizada.

Através de técnicas de yoga ele chegou ao controle dos canais, energias e a essência de seu corpo vajra. Como resultado, sua garganta se abriu em um “ciclo abundante” de ensinamentos. Seus canais físicos se transformaram em “nuvens de letras”. Todas as aparências dos fenômenos se transformaram em “sinais e gestos do Darma”. Sua fala se tornou canções de profunda realização. Seus escritos, viraram tratados de grande poder de sabedoria e erudição. Um oceano inexaurível de fenômenos ligados a ensinamentos continuou a jorrar para ele e a partir dele.

Então, ele compôs seu primeiro grande texto, o Khyentse Melong Ozer Gyalwa, um tratado explicativo sobre o ciclo “Lama Gongu”.

Guru Rinpoche, aparecendo em uma visão, deu a ele o nome Pema Wangchen. Em uma visão, Manjushrimitra concedeu bênçãos, que provocaram a compreensão da sabedoria simbólica (mTshon Byed dPe’i Ye Shes). Depois, ele trocou seus mantos monásticos cor de vinho pelas vestes naturais de um asceta, mantos brancos sem cor e cabelos longos sem corte.

Aos 28 anos, ele descobriu a revelação extraordinário do ciclo Longchen Nyingthig, os ensinamentos do Dharmakaya e Guru Rinpoche, como um tesoura da mente. Na noite do 25º dia do 10º mês do ano do Touro de Fogo do 13º ciclo Rabdjung (1757), ele foi para a cama sentindo uma devoção insuportável a Guru Rinpoche no coração; um fluxo de lágrimas de tristeza continuamente molhava seu rosto por ele não estar na presença de Guru Rinpoche, e incessantes palavras de preces ficavam cantando em sua respiração.

Ele permaneceu nas profundezas daquela experiência meditativa de clara luz (‘Od gSal Gyi sNang Ba) por um longo tempo. Enquanto estava absorto nessa clara luz, ele teve a experiência de voar uma grande distância pelo céu montado em um leão branco. Finalmente, chegou a um caminho circular, que ele pensou ser a trilha de circumambulação de Charung Khashor, hoje conhecida como estupa de Bodhnath, um importante ponto de peregrinação budista de proporções monumentais, no Nepal.

No lado leste da estupa, ele viu o Dharmakaya surgindo na forma de uma dakini de sabedoria. Ela o confiou um belo porta-jóias de madeira, dizendo:

Para os discípulos com mente pura,
Você é Trisong Detsen.
Para os discípulos com mente impura,
Você é Senge Repa.
Este é o tesouro de mente de Samantabhadra,
A escrita simbólica de Rigdzin Padma[sambhava], e
Os grandes tesouros secretos das dakinis. Fim dos sinais!

A dakini desvaneceu. Sentindo grande alegria, ele abriu o porta-jóias. Ali, descobriu cinco rolos de pergaminho amarelo com sete contas de cristal. De início, a escrita era ilegível, mas depois se transformou em língua tibetana. Um dos rolos era o Dug-ngal Rangtrol, a sadhana de Avalokiteshvara, e outro era o Nechang Thukkyi Drombu, o guia de profecias do ciclo Longchen Nyingthig. Rahula, um dos protetores dos ensinamentos, apareceu diante dele para prestar homenagem.

Ao ser encorajado por outra dakini, Jigme Lingpa engoliu todos os pergaminhos amarelos e as contas de cristal. Instantaneamente, teve a maravilhosa experiência de que todas as palavras do ciclo Longchen Nyingthig e seus significados despertaram em sua mente, como se estivessem ali gravadas. Mesmo após sair dessa experiência meditativa, ele continuou na realização do estado desperto intrínseco, a grande união de êxtase e vacuidade.

Assim, os ensinamentos Longchen Nyingthig e a realização, que foram confiadas e ocultas nele por Guru Rinpoche muitos séculos antes, despertaram, e ele se tornou um terton, o descobridor do ciclo de ensinamentos Longchen Nyingthig. Gradualmente, ele transcreveu os ensinamentos do ciclo, começando com o Nechang Thukkyi Drombu.

Ele manteve todos seus ensinamentos descobertos em segredo completo por sete anos, já que o tempo ainda não estava maduro para ensinar aos outros. Também era essencial que o terton praticasse ele mesmo os ensinamentos primeiro.

Embora estivesse levando a vida de um iogue oculto, respeito e fé por ele cresceram espontaneamente nas pessoas ao redor, e ele se tornou uma fonte de benefícios para muitos, já que aperfeiçoou o poder das quatro ações sem precisar se esforçar para adquiri-lo.

Aos 31 anos, começou a cumprir um segundo retiro de três anos em Chimphu, perto de Samye. Primeiro, ele começou o retiro em um local conhecido como a caverna do Norte de Nyang. Depois, descobriu outra caverna e a reconheceu como Sangchen Metok ou o caverna do Sul de Nyang, onde o rei Trisong Detsen recebeu os ensinamentos Nyingthig de Nyang e meditou neles. Pelo restante do retiro, ele viveu na caverna Sangchen.

Durante seu retiro dem Chimphu, a mais elevada realização Dzogpa Chenpo despertou em Jigme Lingpa. Esse despertar foi causado por três visões puras do corpo de sabedoria de Longchen Rabjam (1308 ~ 1363), o Dharmakaya em manifestação pura. Na caverna do Norte de Nyang ele teve a primeira visão, em que recebeu a bênção do corpo vajra de Longchen Rabjam. Jigme Lingpa obteve a transmissão tanto das palavras quanto do significado dos ensinamentos de Longchen Rabjam. Após mudar-se para Sanghcen Phuk (Grande Caverna Sagrada), ele teve a segunda e terceira visões.

Jigme Lingpa

Na segunda visão, ele recebeu a bênção da fala de Longchen Rabjam, que transmitiu o poder para ele ser o detentor e propagador dos ensinamentos profundos de Longchen Rabjam, como seu regente. Na terceira visão, Jigme Lingpa recebeu a bênção da mente de sabedoria de Longchen Rabjam, que despertou ou transferiu o poder inexprimível do estado desperto intrínseco iluminado de Longchen Rabjam para ele.

Agora, para Jigme Lingpa, como não havia nenhum ponto de referência objetivo, todas as aparências externas se tornaram sem fronteiras. Não havia nenhuma meditação separada ou estado meditativo a perseguir. Como não havia nenhum designador objetivo em sua mente interna, tudo se tornou naturalmente livre e totalmente aberto em unidade.

Ele compôs o Kunkhyen Zhallung e outros escritos como o verdadeiro significado dos “Sete Tesouros” de Longchen Rabjam, que despertaram em sua mente. Jigme Lingpa expressou seu poder de sabedoria em canções vajra para seus devotados companheiros eremitas, sobre diversas situações:

[continua …]


Traduzido de “Masters of Meditation and Miracles”, de Tulku Thondup. Publicado no aniversário de Rigdzin Jigme Lingpa: 18 de outubro, em 2012.

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