Mingyur Rinpoche e o retiro de andarilho







O andarilho

Ele era um autor de bestsellers e uma estrela em ascensão no mundo budista, mas um dia Mingyur Rinpoche simplesmente saiu andando e deixou tudo para trás. Andrea Miller reporta sobre como um lama moderno está trilhando o caminho ancestral do iogue andarilho. (artigo publicado na revista Shambhala, em março de 2012)

O velho Lama Soto bateu na porta de Yongey Mingyur Rinpoche. Depois, bateu de novo. Era meio dia no monastério Tergar em Bodhgaya, Índia, e Lama Soto levava o almoço de Mingyur Rinpoche, assim como fez nos últimos cinco dias, desde que Mingyur Rinpoche anunciou que iria intensificar sua prática e ficar sozinho em seu quarto, comendo só uma vez por dia.

O combinado era que Lama Soto bateria na porta; em resposta, Mingyur Rinpoche abriria-a e, então, Lama Soto entraria. Mas nesse dia, no começo de junho último, Mingyur Rinpoche não abriu a porta e nenhum som veio de seu quarto.

A 1 hora da tarde, Lama Soto empurrou a porta destrancada e encontrou na cama um longo lenço cerimonial e uma carta. Mingyur Rinpoche havia ido embora e não levou nada consigo — nenhum dinheiro, nenhuma muda de roupa, nem mesmo a escova de dentes. Lama Soto quase desmaiou.

A carta, escrita em tibetano, explicava que desde tenra idade, Mingyur Rinpoche queria praticar viajando sozinho de um lugar para outro no estilo de um iogue andarilho, e que ele finalmente tomou a decisão de fazer isso. “Embora eu não reivindique ser como os grandes mestres do passado”, escreveu, “estou agora embarcando nesta jornada como um mero reflexo desses mestres, como uma devotada imitação do exemplo que eles deixaram”. Ele incitou seus alunos a continuarem praticando em sua ausência e a não se preocuparem com ele.

Mais de oito meses se passaram desde que Mingyur Rinpoche desapareceu, e até agora ninguém sabe onde ele está. Cortland Dahl é o presidente do conselho da Tergar International, uma rede de centros de meditação e grupos de estudo sob a orientação de Mingyur Rinpoche. Quando perguntei a Dahl se ele tinha alguma suposição sobre as imediações de seu professor, ele me contou que a resposta curta é “não”, mas que têm surgido rumores.

“Acabo de ouvir no Facebook”, Dahl me conta, “que ele foi visto em Tso Pema, um local de peregrinação famoso no norte da Índia. E ouvi outra pessoa dizer que há um avistamento não confirmado em Ladakh. Não faço ideia se eles realmente o viram. Mas se qualquer pessoa tivesse o visto, e ele percebesse que as pessoas sabiam que ele estava ali, tenho certeza que a primeira coisa que ele faria seria juntar as coisas e ir para outro lugar.”

Iogues andarilhos

Milarepa

Milarepa, cuja vida é a matéria-prima de lendas, é o mais famoso iogue andarilho do Tibete. Cerca de mil anos atrás, ele nasceu em uma família próspera. Mas então seu pai morreu e a tia de Milarepa tomou posse dos bens, forçando Milarepa, sua irmã e sua mãe à servidão. Isso fez com que a mãe quisesse vingança e ela o manipulou para ele ir estudar magia negra.

Um dia, quando sua tia e tio estava dando uma festa para celebrar o noivado do filho, Milarepa provocou uma tempestade que destruiu a casa, matando 35 pessoas. Os aldeões ficaram furiosos e foram caçá-lo, mas Milarepa ficou sabendo que eles vinham e trouxe uma tempestade de granizo. Mais tarde, contudo, a força completa de seus atos o atingiu e ele ficou desolado de remorso.

Foi nesse ponto que Milarepa encontrou Marpa, um poderoso iogue chefe-de-família, que reconheceu Milarepa como seu futuro filho do coração, embora não tenha falado sobre isso. Em vez disso, ele foi duro com Milarepa. Gritava e batia nele, recusando-se a ensiná-lo até que ele construísse e demolisse três torres de pedras, uma depois da outra. Desse modo, Marpa ajudou Milarepa a rapidamente queimar seu karma negativo, para que ele pudesse se dedicar à prática.

Mais tarde, depois que alcançou a iluminação, Milarepa chegou à conclusão de que não havia mais motivo para ele ficar nas montanhas e decidiu ir para as cidades e vilas ensinar. Antes que pudesse partir, no entanto, ele teve um sonho em que Marpa dizia para ele permanecer em retiro. Se fizesse isso, Marpa disse, ele tocaria as vidas de incontáveis pessoas através de seu exemplo.

Milarepa é lembrado hoje pela beleza e inspiração de suas canções e poemas. Por metade de uma vida inteira, ele andou pelas montanhas do Tibete. Em certo ponto, viveu em uma caverna e sobreviveu apenas com sopa de urtiga, o que o deixou com os ossos expostos e a pele estranhamente esverdeada. Frequentemente, as pessoas descobriam que Milarepa, um mestre realizado, vivia ali perto, e então se reuniam ao seu redor. Quando a multidão crescia muito, ele ia embora.

Outro conhecido iogue andarilho foi Dza Patrul Rinpoche, um grande mestre de Dzogchen do século 19. Totalmente desinteressado em boas roupas e títulos, Patrul Rinpoche mendigava refeições nos acampamentos de nômades. Certa vez uma grande lama chegou, a quem dos nômades saudaram com incenso e prostrações. Então o lama viu Patrul Rinpoche e se arremessou no chão a seus pés. Só assim as pessoas compreenderam a realização do surrado andarilho.

Nyoshul Khen Rinpoche foi um dos poucos iogues recentes que viveram como andarilho. Mestre de Dzogchen, ele por pouco não foi pego pelos comunistas chineses ao escapar do Tibete em 1959; depois, vagou pelas ruas de Calcutá, mendigando e vivendo entre sadhus hinduístas. Khen Rinpoche, já falecido, foi um dos professores de Mingyur Rinpoche que mais o influenciaram.

Infância difícil

Yongey Mingyur Rinpoche era uma estrela em ascensão no mundo budista. Autor de dois livros bestsellers, tinha uma grande comunidade de alunos por todo o globo, além de ser o abade do monastério Tergar Osel Ling no Nepal e Tergar Rigzin Khacho Targye Ling na Índia. Somando tudo, ao escapar em junho, estava deixando muita coisa para trás.

Mingyur Rinpoche, com o irmão Tsoknyi Rinpoche, e os pais: Tulku Urgyen Rinpoche e Sonam Chodron

Mingyur Rinpoche nasceu em Nubri, Nepal, em 1975, em uma família ilustre. Sua mãe era Sonam Chodron, uma descendente de dois reis tibetanos, e seu pai era Tulku Urgyen Rinpoche, um dos mais renomados professores de Dzogchen do século 20. O filho mais novo do casal, Mingyur Rinpoche, tinha três irmãos mais velhos, todos eles mestres budistas realizados: Chokyi Nyima Rinpoche, Tsikey Chokling Rinpoche e Tsoknyi Rinpoche.

Mingyur Rinpoche teve o que, superficialmente, parece uma infância idílica. Afinal, tinha uma família amorosa e um lar no meio de um belo vale no Himalaia. Mas no livro “Alegria de Viver”, ele faz uma confissão; uma que ele reconhece que pode parecer estranha vindo de alguém encarado como um lama reencarnado, que supostamente fez coisas maravilhosas em vidas passadas. “Desde bem cedo na infância”, Mingyur Rinpoche escreve, “fui assombrado por sentimentos de medo e ansiedade. Meu coração acelerava e frequentemente tinha crises com muito suor sempre que estava com pessoas que não conhecia … A ansiedade me acompanhava como uma sombra.”

Quando Mingyur Rinpoche tinha seis anos, ele encontrou algum alívio meditando nas cavernas que marcavam as colinas em torno de sua vila. Nessas cavernas, gerações de praticantes meditaram; nelas Mingyur Rinpoche tentou seguir os passos ao mentalmente entoar o mantra Om Main Padme Hum. Embora ele não entendesse de fato o que estava fazendo, essa prática deu a ele uma calma temporária. No entanto, fora das cavernas, sua ansiedade continuou a crescer até que — como dizemos no ocidente — ele chegou a uma síndrome do pânico completa.

Em desespero, Mingyur Rinpoche reuniu a coragem para pedir se podia estudar formalmente com seu pai, Tulku Urgyen. Seu pai concordou e começou a ensinar a ele vários métodos de meditação. Como no caso dos mantras, isso fez Mingyur Rinpoche vivenciar breves momentos de calma, embora seu medo e pânico persistissem. Ele considerava especialmente estressante o fato de que a cada punhado de meses ele era enviado ao monastério Sherab Ling na Índia para estudar com professores não-familiares, entre alunos não-familiares. Além disso, houve sua entronização oficial como a 7ª reencarnação de Yongey Mingyur Rinpoche.

“Centenas de pessoas compareceram à cerimônia”, ele escreveu, “e passei horas aceitando seus presentes e dando bênçãos, como se fosse alguém realmente importante em vez de apenas um menino de 12 anos aterrorizado. Com o passar das horas, fiquei tão pálido que meu irmão mais velho, Tsoknyi Rinpoche, que estava ao meu lado, pensou que eu fosse desmaiar”.

Cerca de um ano depois, Mingyur Rinpoche soube que um retiro de três anos iria começar no Sherab Ling, e que seria ministrado por Saljey Rinpoche, um mestre renomado. Mingyur Rinpoche tinha 13 anos — idade considerada precoce para tal prática intensa — mas ele pensou que esse seria o último retiro que o idoso Saljey Rinpoche conduziria. Mingyur Rinpoche implorou pela permissão de participar; no final, ela foi concedida.

“Gostaria de dizer que tudo ficou melhor ao me assentar com segurança entre os outros participantes do retiro de três anos”, Mingyur Rinpoche admitiu. “Mas, pelo contrário, meu primeiro ano de retiro foi um dos piores da minha vida. Todos os sintomas de ansiedade que já vivenciei — tensão física, aperto na garganta, vertigem e ondas de pânico; especialmente intensas nas práticas em grupo — atacaram com força total. Em termos ocidentais, eu estava tendo um colapso nervoso. Em retrospecto, posso dizer que o que realmente estava passando era o que gosto de chamar de ‘travessia nervosa'”.

Mingyur Rinpoche quando criança

Mingyur Rinpoche teve que escolher entre gastar os últimos dois anos de retiro chorando em seu quarto, ou aceitar a verdade que ele aprendeu com seus professores: a de que quaisquer problemas que experimentasse eram hábitos de pensamento e percepção.

Mingyur Rinpoche escolheu o que foi ensinado e, gradualmente, apenas por sentar quietamente e observar, descobriu a si mesmo capaz de dar boas-vindas a seus pensamentos e emoções, se tornando de certo modo fascinado com sua variedade e intensidade. Foi como “olhar por um caleidoscópio e perceber como os padrões mudam”, ele escreveu em “Joyful Widsom”.

“Comecei a compreender, não só intelectualmente, mas de modo direto e experimental … como pensamentos e emoções que parecem avassaladores eram na verdade expressões do poder infinitamente vasto e inventivo da minha própria mente”.

Mingyur Rinpoche nunca teve outro ataque de pânico, nem seu sentimento de confiança e bem-estar vacilou. Isso não quer dizer, contudo, que ele deixou de passar por altos e baixos. Ele é cuidadoso ao dizer que não se iluminou, e é sincero sobre estar sujeito a toda gama de experiências humanas ordinárias, incluindo cansaço, raiva e tédio. O que é diferente é que sua relação com esses experiências mudou de modo permanente; ele não mais é atropelado por elas.

Segundo Cortland Dahl, os ataques de pânico de Mingyur Rinpoche levaram-no a começar a praticar e estudar o darma de um modo atípico para um lama — um modo muito mais próximo daquilo que fazemos no ocidente. Ele acredita que um dos motivos porque os ensinamentos de Mingyur Rinpoche ressoam tanto entre alunos ocidentais é sua abertura para falar sobre seus próprios desafios pessoais.

“Por motivos culturais”, Dahl explica, “lamas se sentem confortáveis para falar das questões das outras pessoas, embora eles geralmente não falem sobre suas próprias batalhas com a prática ou as emoções. Sim, ele era um tulku, um lama reencarnado, e sim, ele cresceu em uma ambiente maravilhoso, em uma família repleta de grandes mestres. Mas ele estudou o darma não porque isso era o treinamento-padrão de um jovem tulku, mas porque ele precisava desesperadamente disso. Ele realmente queria um modo para lidar com esse doloroso episódio de sua vida”.

“De modo similar, muitos de nós no ocidente chegamos ao budismo porque estávamos sofrendo e queríamos algum modo para lidar com nossas mentes. Mingyur Rinpoche realmente pode falar sobre nossas experiências de modo bem direto. E não é que ele apenas passou por isso, mas ele também é bem terno sobre isso.”

Ultra-simples

Em um mundo que relaciona a felicidade com produtos caros, Mingyur Rinpoche se sobressai em alto contraste. Mesmo antes de deixar o mosteiro apenas com as roupas do corpo, ele já levava uma vida ultra-simples. Extremamente consciente de questões de saúde, ele não comia nenhuma carne ou açúcar refinado e caminhava todo dia.

Caminhava com sapatos velhos. Uma vez, algumas pessoas queriam comprar para ele um par de tênis, mas sua resposta foi: “Obrigado, mas não preciso disso — eles não vão caber na minha bolsa” — a única bolsa que ele carregava com ele ao viajar era minúscula.

“Tudo que Mingyur Rinpoche obtia”, diz Cortland Dahl, “todas as doações e dinheiro dos livros, vai para seu mosteiro ou projetos do darma. As pessoas estão sempre dando presentes e oferendas, mas geralmente ele dá o que quer que seja para outra pessoa logo depois. Ele literalmente não tem quase nada”.

Ele tinha 16 anos ao sair de seu primeiro retiro de três anos, e para sua própria surpresa, foi designado como mestre do próximo retiro. Isso fez dele o lama mais jovem que se tem notícia a exercer tal função. Também significa que ele ficou, efetivamente, em retiro intensivo por quase sete anos consecutivos.

Frequentando a faculdade monástica, servindo como abade funcional do mosteiro Sherab Ling, tomando os votos de ordenação completa como monge: a vida adulta de Mingyur Rinpoche foi extremamente ocupada.

Ciência

Criança, ele conheceu Fracisco Varela, um neurocientista de renome mundial que ai ao Nepal estudar budismo com Tulku Urgyen Rinpoche. Varela frequentemente conversava com Mingyur Rinpoche sobre ciência, especialmente em relação à estrutura e funcionamento do cérebro. Outros alunos ocidentais de Tulku Urgyen deram a ele lições informais de biologia, psicologia, química e física.

Durante o estudo do cérebro de meditadores. Sua área cerebral ligada à felicidade tinha 750% mais atividade do que em meditadores iniciantes.

“Foi um pouco como aprender duas línguas ao mesmo tempo”, Mingyur Rinpoche escreveu. “Budismo de um lado, ciência moderna de outro. Lembro de pensar já ali que não havia muita diferença entre os dois”. Eram ambos métodos de investigação.

Em 2002, ele foi um dos meditadores avançados convidados pelo Waisman Laboratory for Brain Imaging and Behavior, na universidade de Wisconsin-Madison, em que cientistas examinaram os efeitos da meditação no cérebro. Grandes publicações como National Geographic e Time reportaram os resultados dessa pesquisa revolucionária.

Notavelmente, quando praticantes avançados meditavam sobre compaixão, a atividade neural de uma área-chave ligada à felicidade aumentava entre 700% e 800%. No grupo de controle, composto por pessoas que estavam começando a meditar, a atividade aumentava apenas entre 10% a 15%. A meditação, o estudo sugeriu, tem o potencial de aumentar a felicidade.

A prática de vagar

No início de 2009, Mingyur Rinpoche abriu seus planos de retiro para um pequeno círculo de pessoas, as pessoas que — como Dahl coloca — iriam “cuidar do barco” em sua ausência. Depois que partiu, seu irmão Tsoknyi Rinpoche explicou durante um retiro no Garrison Institute (em julho de 2011): “Mingyur Rinpoche queria fazer o retiro e planejou isso — ele não abandonou suas atividades sem responsabilidade. Ele gravou entre quatro e cinco anos de instruções, treinou instrutores, levantou fundos e delegou todo seu trabalho. Então, ele preparou tudo”.

Depois, no verão de 2010, em Minnesota, Mingyur Rinpoche fez um anúncio público formal sobre seus planos de retiro. As pessoas, no entanto, assumiram que ele planejava fazer um retiro de três anos fechado — uma suposição que faz sentido, já que ser um iogue errante é algo bem incomum, especialmente em tempos modernos.

Por que praticar nesse estilo hoje é tão raro?

Segundo o instrutor Tergar Tim Olmsted, depois que os tibetanos deixaram seus países nos anos 50, lamas de segunda e terceira geração tiveram que lutar para manter a tradição budista viva. Para construir monastérios e faculdades, eles precisaram dedicar uma quantidade enorme de tempo para levantar fundos; precisaram publicar livros e viajar para o ocidente e o sudeste asiático para reunir alunos. Resumindo, os lamas simplesmente nunca tiveram a chance de ser iogues andarilhos.

Mas há outro motivo porque ser andarilho não é comum hoje: “É difícil”, Olmsted diz de modo bem direto.

Myoshin Kelley, também instrutora Tergar, desenvolve mais sobre o assunto. “Não acho que muitos de nós estejam preparados para um retiro como iogue andarilho”, diz ela. “Ter paredes ao redor, um suprimento de comida constante, e um ambiente seguro para meditar é um ótimo suporte, que poupa muita energia, que podemos então direcionar para olhar profundamente dentro de nossos corações e mentes. Para iogues andarilhos, há um nível enorme de incerteza que eles precisam lidar todos os dias. Essa incerteza pode tornar difícil a manutenção de uma mente estável, que permita a realização. Vejo que ser um iogue andarilho é uma prática avançada”.

Annabela Pitkin, professora da Universidade de Columbia que pesquisou extensamente sobre renunciantes e iogues andarilhos, concorda que isso é algo avançado, mas não significa que todos os praticantes avançados são andarilhos ou devam ser. Na tradição tibetana, há muitos caminhos válidos e poderosos, diz ela. A realização é possível tanto se a pessoa é um monge em uma instituição, um chefe de família, um recluso eremita ou um iogue andarilho.

Mas essas amplas categorias não são tão bem definidas. Por exemplo, continua Pitkin, “uma das coisas que você vê com frequência na tradição tibetana é que as pessoas serão monges ou monjas em um ambiente institucional em algum ponto de suas vidas, talvez bem cedo, depois partirão para serem andarilhas. E eventualmente começam a ficar em um lugar por precisarem ensinar mais”. Dito isso, mesmo monges que passam toda vida em uma instituição não têm uma prática-padrão. Por exemplo, alguns são especializados em rituais, enquanto outros são administradores ou professores.

“Há muitas coisas que precisam acontecer para manter a continuidade da tradição monástica”, diz Pitkin. E é importante lembrar-se de quão crítico é o fato de que ela continue. Sem a tradição monástica, ela diz, “não há budismo, não há continuidade”. Ao mesmo tempo, ela afirma, para se manter fresca, a tradição precisa da inspiração oferecida por iogues andarilhos, essas “figuras de paixão vívida que dramaticamente ilustram a totalidade do caminho budista”.

Ao vagar, diz Pitkin, “você renuncia ao apego não apenas de posses e confortos, mas a coisas mais sutis, como ser famoso e controlar para onde vai. Como um iogue andarilho, você vai para onde as circunstâncias mandarem — você precisa responder às situações nas quais se encontra. Ou seja, há liberdade total de emaranhamentos cotidianos, mas também uma renúncia muito profunda dos apegos ordinários”.

“A renúncia é o núcleo do caminho budista, então se a função primária de um lama é ensinar os outros ao dar palestras, a prática de ser um andarilho ajuda-os nisso, já que ela desenvolve as qualidades internas deles. Mas lamas também podem ensinar através da demonstração: ser um exemplo do estilo de vida renunciante é um modo muito poderoso para ensinar as pessoas a repensarem sua relação ordinária com suas vidas e posses”.

Guia e refúgio para todos nós

Em julho, no Garrison Institute, Sogyal Rinpoche, autor do “Livro Tibetano do Viver e do Morrer”, falou sobre o retiro de Mingyur Rinpoche como iogue andarilho. “No futuro”, diz Sogyal, “ele será alguém a quem todos nós veremos como guia e refúgio”.

Os alunos mais próximos de Mingyur Rinpoche sabiam que ele tinha a aspiração de se tornar um iogue andarilho. O que eles não sabiam era quando ele partiria. “Penso que isso foi bem intencional”, diz Cortland Dahl. “Rinpoche obviamente quer e quis depender apenas de si. Seria praticamente impossível para ele fazer isso se contasse a alguém quando partiria. Seus alunos tibetanos — devido a uma mistura de devoção, cuidado e medo — teriam forçado que ele levasse um atendente”.

A reverência aos iogues andarilhos na tradição tibetana frequentemente fica só na abstração, diz Pitkin. Na prática, as pessoas geralmente não querem que seu próprio guru parta, por isso as biografias dos andarilhos estão repletas de pessoas tentando fixá-los em um lugar só. “É ótimo que Milarepa tenha vagado”, Pitkin brinca, “mas é melhor ainda se meu professor ficar aqui comigo”.

Espera-se que Mingyur Rinpoche vague por três ou cinco anos, talvez mais, e volte do mesmo modo como partiu. Sem aviso.

Enquanto isso, Myoshin Kelley acredita que Mingyur Rinpoche está gastando ou vai gastar pelo menos parte de seu tempo nas montanhas. “Não apenas por causa de seu amor por elas”, ela diz, “mas porque são um ambiente muito propício à meditação. Ele frequentemente contava histórias de iogues descendo das montanhas para testar sua prática no mercado. Talvez, primeiro, ele vá para as montanhas e, depois, desça para o caos de uma grande cidade.”

“Realmente, Mingyur Rinpoche poderia aparecer em qualquer lugar e acho isso uma ideia divertida. Mantenha os olhos abertos e trate todos como se fossem seu guru!”


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