Biografia de Patrul Rinpoche







Patrul Rinpoche

Uma breve biografia de Dza Patrul Rinpoche (1808-1887)

por Alak Zenkar Rinpoche

Dza Palge Tulku ou Dzogchen Patrul Rinpoche nasceu no Ano do Dragão do 14º ciclo do calendário em Getse Dzachukha, na área nômade do norte de Kham, em uma família com o nome de Gyaltok. Ele foi reconhecido por Dodrupchen Jikmé Trinlé Özer como a encarnação de Palgé Samten Phuntsok e recebeu o nome Orgyen Jikmé Chökyi Wangpo.

Em idade precoce, aprendeu a ler e escrever sem qualquer dificuldade. Recebeu ordenação de Khen Sherab Zangpo. Com Dola Jikmé Kalzang, Jikmé Ngotsar, Gyalsé Shenpen Thayé e outros professores, estudou a Trilogia sobre Encontrar Conforto e Tranquilidade, O Caminho do Bodisatva, o Tantra da Essência Secreta e muitos outros trabalhos relacionados a sutra e tantra, assim como as ciências comuns. De Shechen Öntrul Thutob Namgyal, recebeu a transmissão oral da Palavra Traduzida do Buda (Kangyur) e ensinamentos sobre gramática sânscrita. Ele recebeu as transmissões completas do Kangyur e Tengyur, junto com os escritos excelentes do pai e filho oniscientes [1] da tradição Nyingma, assim como trabalhos de Sakya Pandita, do Soberano Tsongkhpa e muitos outros grandes mestres das escolas de tradução antiga e novas. Ao estudar e refletir sobre elas com diligência e persistência, sem nenhuma inclinação sectária, ele alcançou um nível perfeito de erudição.

Ele não apenas recebeu instrução sobre as preliminares Longchen Nyingtik cerca de 25 vezes de Jikmé Gyalwé Nyugu, mas completou as práticas requeridas o mesmo número de vezes [2]. Além disso, recebeu instrução sobre as práticas de tsa-lung e Dzogchen e estudou muitos dos ciclos de prática encontrados nas escrituras canônicas (kama) da escola Nyingma. Do Khyentse Yeshe Dorje introduziu-o diretamente ao estado desperto puro de rigpa ao exibir um comportamento selvagem e excêntrico.

Ele treinou por um longo tempo nas práticas tsa-lung Longchen Nyingtik e recebeu imensas quantidades do Darma que é como néctar de Dzogchen Rinpoche Mingyur Namkhé Dorje e outros mestres.

Ao permanecer longos períodos perto do Monastério Dzogchen nos eremitérios isolados de Rudam, como as cavernas Yamantaka e a da Longa Vida, ele colocou toda sua energia na prática de meditação e atingiu uma realização tão vasta quanto o espaço.

A partir da idade de 30, viajou para Serthar, Yarlung Pemakö e outros lugares, ensinando extensivamente o Tantra da Essência Secreta para reuniões de vidyadharas afortunados. Para assembleias em Serthar e nas regiões superiores e inferiores do vale Do, ele concedeu incontáveis presentes do Darma, ensinando O Caminho do Bodisatva, Mani Kabum, Prece de Aspiração de Sukhavati e outros. Ele colocou fim aos roubos e à bandidagem, e aboliu o costume de servir carne nas reuniões especiais.

Ele foi para Dzamthang e estudou as seis iogas com Tsangpa Ngawang Chöjor, e foi para Minyak, onde teve discussões extensas com Dra Geshe Tsultrim Namgyal sobre o prajnaparamita e outros tópicos. Desse modo, seguiu como um renunciante, tendo abandonado todas as preocupações mundanas; trabalhou imparcialmente pelo bem dos outros, sem qualquer agenda ou itinerário fixos.

Na faculdade Shri Singha do Monastério Dzogchen, em Pemé Thang e outros locais, Patrul girou a roda do Darma ininterruptamente, ensinando os tratados de Maitreya, do Caminho do Meio, Abhidharma, Tantra da Essência Secreta, Tesouro de Qualidades Preciosas, Reforço dos Três Votos e outros tópicos. Em particular, quando ensinou O Caminho do Bodisatva nas vizinhanças do Dzogchen Shri Singha por vários anos seguidos, um grande número de flores chamadas Serchen, com cerca de 30 e 50 pétalas, desabrocharam todas de uma vez, ficando conhecidas como “flores bodhicharyavatara”.

Quando o tertön Chokgyur Dechen Lingpa retirou o terma Demchok Sangye Nyamjor de Rudam Kangtrö, o eremitério das neves em Dzogchen, ele designou Patrul Rinpoche como o detentor desse e de outros ciclos, incluindo A Essência do Coração das Três Famílias (Riksum Nyingtik), e ofereceu a ele todas as iniciações, transmissões orais e instruções necessárias.

Ele foi para Kathok Dorje Den, onde ofereceu prostrações e circumambulou os relicários dos três grandes mestres Dampa Deshek, Tsangtön Dorje e Jampa Bum. Após o pedido de Situ Choktrul Chökyi Lodrö e outros, deu explicações extensas sobre O Caminho do Bodisatva para toda a assembleia de monges. Foi até os monastérios principais da tradição Riwo Gendenpa como Sershul, Labtridu, Chuhor e outros, ensinando elaboradamente O Caminho do Bodisatva e outros tópicos. Como ele instruía de modo claro e sucinto, relacionando tudo aos pontos-chaves da prática, mesmo detentores do título Geshe Lharampa espalhavam flores de homenagem e se curvavam a ele em devoção.

Patrul Rinpoche estabeleceu um centro de ensinamentos na vizinhança do Monastério Dzagyal. Ao reparar o grande conjunto de paredes de pedras “mani” (do-bum), construído por sua encarnação anterior Palge Samten Phuntsok, a obra se tornou extraordinariamente bela e até maior e mais alta que antes, mais tarde sendo conhecida como Patrul Dobum.

Esse grande mestre devotou toda sua vida a estudar, contemplar e meditar — para seu próprio benefício — e ensinar, debater e compor — para o benefício dos outros. Ao fazer isso, ajudou a fazer do ensino e estudo de textos como O Caminho do Bodisatva, os tratados de Maitreya, os Três Conjuntos de Votos e o Tesouro de Qualidades Preciosas algo tão difundido quanto as próprias pedras e terra das regiões superioes, centrais e inferiores do Tibete Oriental. Em particular, quando a tradição de ensinar o Tantra da Essência Secreta e as tradições da orientação experiencial e das práticas tsa-lung do Longchen Nyingtik estavam já como lâmpadas com pouco combustível, através de sua grande bondade, ele as reviveu e as deixou mais fortes e difundidas até do que antes.

Os discípulos principais desse grande mestre, que fez tanto para preservar e espalhar os ensinamentos da essência vajra da clara luz, incluem mestres eruditos e realizados da escola Nyingma como Kathok Situ Choktrul Chökyi Lodrö, o 5º Dzogchen Rinpoche Thubten Chökyi Dorje, Gyarong Namtrul Kunzang Thekchok Dorje, e 2º e o 3º Dodrupchens, Jikme Phuntsok Jungne e Jikmé Tenpe Nyima, Dechen Rigpé Raldri, que era o filho de Do Khyentse Yeshe Dorje, a suprema encarnação Shenpen Chökyi Nangwa [ou seja, Khenpo Shenga], Adzom Druktrul Droddul Dorje, Tertön Lerab Lingpa, Jun Mipham Namgyal, Khenchen Pema Damchö Özer [também conhecido como Khenpo Pema Vajra], Nyosul Lungtok, Alak Dongak Gyatso e outros. Além disso, seus discípulos incluem muitos grandes mestres e detentores de ensinamentos Sakya, Gelugpa e Kagyü, como Sershul Lharampa Thubten, Palpung Lama Tashi Özer e Ju Lama Drakpa Gyaltsen.

Finalmente, no 18º dia do Saga Dawa do ano do Porco de Fogo do 15º ciclo do calendário, ele exibiu os sinais da dissolução de seu corpo no espaço que tudo permeia da realidade.

Patrul Rinpoche compôs incontáveis trabalhos que se adequavam às mentes individuais de seus discípulos e preencheu as aspirações deles. Embora eles prezassem essas obras, mantendo-as com eles, elas não foram compiladas pelo próprio mestre ou por seus atendentes; assim, muitas delas jamais foram gravadas em blocos de impressão. Os trabalhos que foram gravados e hoje podem ser encontrados, como néctar com o qual podemos deleitar nossos olhos, abrangem volumes em número igual às seis paramitas. Entre essas composições, encontramos todo tipo de trabalho, incluindo comentários e delineamentos de estrutura (sa bcad) para os tratados de Maitreya, O Caminho do Bodisatva, Tesouro de Qualidades Preciosas e outros textos, assim como As Palavras de Meu Professor Perfeito, coletâneas de aconselhamento e escritos diversos, incluindo O Drama no Jardim de Lótus, coletâneas de louvores e tudo mais. Em tudo que escreveu, ele nunca entrou em detalhes excessivos simplesmente para exibir seu conhecimento, mas explicava as coisas conforme a capacidade dos alunos.

O caráter extraordinário e especial de seus ensinamentos foi descrito por Dodrupchen Jikmé Tenpé Nyima em sua biografia de Patrul:

“Se analisados pelos sábios, são muito significativos. Se ouvidos pelos menos inteligentes, são fáceis de compreender. Ao condensarem os pontos vitais, são fáceis de lembrar. Exatamente do tamanho certo, tudo é coerente e conectado do começo ao fim. São prazerosos ao ouvido, e quaisquer que sejam as palavras usadas, duras ou gentis, se mesclam em “um só sabor” com as instruções e, assim, cativam as mentes de todos, tanto sábios quanto confusos, e os que estão entre esses dois”.

Escrito por Thubten Nyima.

Traduzido [do tibetano para inglês] por Adam Pearcey e Patrick Gaffney em 2006 (Brief Biography of Patrul Rinpoche | Lotsawa House).

Traduzido do inglês para português por um praticante brasileiro relapso, no aniversário de Patrul Rinpoche: 07/06/2012.

[1] Longchen Rabjam e Jikmé Lingpa.

[2] Em outras palavras, ele completou cerca de 2,5 milhões de prostrações e o mesmo número de mantras de cem sílabas, oferendas de mandala e repetições da Prece de Sete Linhas. Poucos mestres na história do Tibete realizaram tal feito. Duas notáveis exceções foram o grande Je Tsongkhapa, que famosamente completou 3,5 milhões de prostrações e cerca de dez milhões de oferendas de mandala; e, em tempos mais recentes, o mestre Sakya, Gatön Ngawang Lekpa, que acumulou um vasto número de prostrações e outras práticas durante seu retiro estrito de 15 anos.


Patrul Rinpoche | Links e referências


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