Zen e misticismo cristão






“O Caminho Perfeito não conhece dificuldades,
Apenas se recusa a fazer distinções.
Somente quando liberto do amor e do ódio
Ele se revela, plenamente, sem disfarces.

Um décimo de polegada de diferença,
E céu e terra são postos à parte.
Se desejas vê-lo diante dos olhos,
Não alimentes pensamentos a favor ou contra ele.

A colocação de aquilo que gostas de encontro ao que não gostas
É uma doença da mente.
Quando o profundo significado do Caminho não é compreendido,
A paz da mente é perturbada sem finalidade…

Não persigas escravizações externas,
Não mores no vácuo interno;
Sê sereno na unidade das coisas,
E o dualismo desaparecerá por si mesmo.

Quando lutas para obter a calma com a paralisação do movimento,
A calma conquistada estará sempre em movimento.
Enquanto estiveres mergulhado em tal dualismo,
Como poderás compreender a unidade?

Quando a unidade não é perfeitamente captada,
A Perda é sustentada de duas maneiras:
A negação da realidade externa é a sua afirmação
E a afirmação do Vazio (o Absoluto) é a sua negação…

As transformações que neste mundo vazio nos confrontam
Parecem ser reais por causa da Ignorância.
Não lutes buscando o Verdadeiro,
Cessa apenas de ter opiniões.

Os dois existem por causa do Um;
Mas não te aferres nem mesmo a este Um;
Quando a mente não está perturbada,
As dez mil coisas não oferecem resistência…

Se um olho nunca adormece,
Todos os sonhos cessarão;
Se a Mente retém seu caráter absoluto,
As dez mil coisas serão da mesma substância.

Quando o profundo mistério da Base é sondado,
Subitamente esquecemos as escravizações externas;
Quando as dez mil coisas são vistas na sua unidade,
Voltamos à origem e permanecemos onde sempre estivemos…

Um em tudo
Tudo em Um.
Se somente isto for compreendido,
Não haverá mais apreensão por não sermos perfeitos!

Quando a Mente e toda mente confiante não estiverem divididas,
E indivisas estiverem toda mente confiante e a Mente,
Aí está o ponto onde as palavras falham,
Pois não é algo do passado, presente ou futuro.”

O Terceiro Patriarca do Zen

“Faze o que estás fazendo agora, sofre o que estás sofrendo agora; faze tudo isso com santidade, nada necessita ser mudado, a não ser o teu coração. A santidade consiste em aceitar o que nos acontece pela ordem de Deus.”

Jean Pierre de Caussade

O vocabulário francês do século XVII é muito diferente do chinês da mesma época. Mas o conselho que eles dão é fundamentalmente semelhante. Conformidade à vontade de Deus, submissão, docilidade aos ditames do Espírito Santo — na prática, mesmo que não sejam idênticos verbalmente, são os mesmos de harmonização com o Caminho Perfeito, recusando preferências e opiniões, mantendo os olhos abertos a fim de que os sonhos possam cessar e a Verdade revelar-se a si mesma.

Aldous Huxley, em “A Filosofia Perene”.
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