A Terra Pura de Tara





Mandala da terra pura de Yulokod, da deidade Tara

Trecho de um relato de Delog Dawa Drolma, sobre a terra pura de Tara. “Delog” é o termo tibetano usado para se referir às pessoas que visitaram os reinos além da morte e retornaram.

Fui para um lugar onde toda a terra verdejava em qualquer lado que se olhasse, lindo e vividamente claro, um ambiente maravilhoso com muitas características extraordinárias. Pavilhões de luz com as cinco cores do arco-íris pairavam no céu. Muitos tipos de flores e lótus cresciam por toda parte. Aqui não havia conceito de verão ou inverno. Árvores que realizavam desejos estavam cheias de folhas, marcadas com as palavras do Buddhadharma em sânscrito, como “Namo Arya Tare Mam”. Pássaros que eram emanações da Nobre Dama — pardais, patos, pavões, garças, papagaios, cucos e cisnes brincavam por toda parte. O lugar estava preenchido de jóias de prosperidade e riqueza. Por todos os lados havia piscinas de néctar enriquecidas com as oito qualidades excelentes e elegantes casas de banho feitas de jóias preciosas.

Nesse reino, não havia conceitos de nascimento, envelhecimento, doença ou morte. Todos os habitantes nasciam miraculosamente a partir dos corações de flores de lótus. Em nenhuma vida futura eles ouviriam sons desconfortáveis ou dissonantes. Aqueles ali habitando eram bodhisattvas que alcançaram altos níveis de realização. Esse lugar ultrapassava os limites da imaginação; seu tamanho não poderia ser medido. Havia ali milhares de mansões inconcebíveis feitas com as cinco substâncias preciosas.

Cheguei ao portão do palácio central, uma vasta mansão celestial de aparência mágica e maravilhosa, com o poder de liberar os seres de quatro maneiras. No momento exato em que entrei ali, despertei do sono profundo da consciência racional ordinária e me libertei dos véus da ignorância. A visão interior de meu puro estado desperto se expandiu e vivenciei um arrebatamento de amor e compaixão.

Cheguei em um jardim onde muitos milhares de deusas, vestidas de verde, cantavam os louvores às 21 formas de Tara, em sânscrito. Ocasionalmente, elas tocavam pequenos címbalos de dedo, tambores de mão dourados e tambores de sândalo, ébano, madeira de coração de serpente e quatro tipos de madeira do coração, assim como címbalos, gongos e flautas. Elas frequentemente acrescentavam aos cânticos música executada com essa inconcebível variedade de instrumentos. Ao ouvir isso, experimentei um sentimento inimaginável de devoção. Fiz diversas oferendas com minha mente.

Continuei pelo imensurável palácio central, a mansão celestial. Vi que as paredes de cinco camadas eram feitas de conchas, ouro, coral, esmeralda e safira, todas com frisos de rubi. Os pilares e colunas eram feitos de pérolas vermelhas. O teto principal de cristal de quartzo e os secundários eram feitos de jóias que iluminavam o interior. Acima de uma cornija de ouro havia um frontão de coral, como base para uma abóboda verde de turquesa. Música melodiosa dos carrilhões do teto ressoavam acabando com o sofrimento daqueles nos reinos inferiores. Fragrâncias de incensos das atitudes imensuráveis pairavam. Havia excelentes exemplos de oferendas inimaginavalmente amorosas.

No centro da mansão, em um lótus multicolorido de mil pétalas e um assento de disco lunar, estava o refúgio único, a perfeita emanação da compaixão, a mãe sublime de todos os vitoriosos dos três tempos, a irmã dos bodhisattvas, aquela cujos seres tanto do reino humano quanto dos paraísos veneram com as coroas de suas cabeças tocando seus pés. A deusa nascida das lágrimas do Compassivo, ela mesma, a Ilustre Tara.

Seu corpo era verde azulado, mais intensamente luminoso que montanhas de turquesa banhadas por mil sóis. Raios infinitos de luz brilhavam de sua forma, adornada com as marcas maiores e menores da perfeição. Seu corpo era o de uma donzela de 16 anos, coberto em vestes feitas com a seda dos deuses e adornada com ornamentos infinitamente valiosos, de jóias que realizam desejos. Seu cabelo era de um negror fulgurante, metade das mechas amarradas em um coque com faixas de seda verde azulada que balançavam com a brisa. Com sua mão esquerda, no gesto simbolizando as Três Jóias, ela segurava o caule de um lótus azul, com pétalas desabrochando na altura de sua orelha. Com sua mão direita ela mantinha o gesto da concessão de refúgio. Ela, Tara, Mãe de Todos os Budas, protegia todos os seres dos medos infinitos deste confuso mundo de existência cíclica. Ela mantinha as duas pernas em meio cruzamento na postura da bodhisattva feminina.

Muitas ilustres bodhisattvas femininas a circunvagavam. Havia também muitas manifestações da própria Tara. Todas eram distintamente visíveis, mas sem os agregados da carne e sangue. Elas apareciam como formas ilusórias de consciência pura, uma manifestação mágica em uma miríade de maneiras. E as vi todas em seu brilho cintilante, como estrelas e planetas refletidas no vasto oceano.

Nesse ponto, minha compreensão da realidade ordinária cessou espontaneamente e experimentei por um tempo um sentimento inimaginável de ordem cósmica.

Delog Dawa Drolma (aproximadamente em 1925), em “Delog: Journey to Realms Beyond Death


comentários