Uma vida anterior de Buda





Certa vez, quando o filho do chefe de família Vallabha — o filho que se chamava “Filha”* — estava partindo para uma viagem marítima em busca de jóias, sua mãe chorou e segurou a barra de sua calça.

“Suas lágrimas”, ele reclamou, “vão me trazer má sorte na jornada”. E, assim dizendo, chutou a cabeça de sua mãe.

No curso da viagem, Filha naufragou, mas apoiando-se a um mastro, foi levado até uma ilha. Chegou a uma cidade chamada Sukha e gradualmente foi se deslocando para outros lugares.

Até que, finalmente, teve que passar pela insuportável dor produzida por uma roda de ferro girando em seu cérebro.

Mas, então, pensou consigo mesmo: “Que todas as dores dos outros seres, que estão sofrendo por terem chutado a cabeça de suas mães, amadureçam em mim. Que eles não passem por isso”.

Nesse mesmo momento, sua tortura cessou e tal foi sua glória quando ele levitou no ar a uma altura de sete palmeiras. Após a morte, renasceu entre deuses.

Se alguém gerar o desejo compassivo de aliviar — com medicamentos, por exemplo — as cabeças doloridas de apenas algumas pessoas, esse desejo altruísta — mesmo que não seja eficaz — produz mérito ilimitado.

O que falar então do infinito mérito dos Bodhisattvas? Eles desejam eliminar a angústia sem fim, nesta e em vidas futuras, de todos os seres, tão numerosos quanto a vastidão do céu, levando a eles excelência sem medida, tanto a curto prazo quanto no nível absoluto.

Kunzang Pelden, em “The Nectar of Manjushri’s Speech”
(“repetindo” os ensinamentos de Patrul Rinpoche sobre a “Introdução ao Caminho do Bodhisattva”, o Bodhicharyavatara)

* Filha: ele recebeu esse nome após vários filhos homens de seu pai morrerem. “Quem sabe ele não sobrevive se eu colocar nele o nome de ‘Filha’?”, pensou. Futuramente, Filha renasceria na era atual como Sidarta Gautama, o príncipe que se tornou o Buda.

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