Compaixão no sonho





Pergunta: Se tudo é um sonho, como pode a sabedoria levar o bodisatva a agir e não simplesmente sentar e desfrutar o sonho?

Chagdud Tulku Rinpoche: O bodisatva enxerga além das aparências e vê a natureza vazia, ou onírica, de todos os fenômenos. Assim como um adulto que observa as crianças fazendo um castelo de areia sabe que aquilo é apenas faz-de-conta, o bodisatva compreende que todos os fenômenos são tão ilusórios quanto a brincadeira infantil. Para um bodisatva, tudo o que acontece é como um sonho grandioso.

Se, durante o sonho, você se der conta de que está sonhando, nada do que acontecer o afetará muito. Você pode se aproximar de um tigre e colocar a cabeça em sua boca. O hálito quente do animal não o perturbará, pois você sabe que está sonhando. Assim também, o bodisatva não se importa se precisa doar um braço ou uma perna, pois ele sabe que está oferecendo um braço de sonho, para um ser de sonho, em um mundo de sonhos. Isso o torna destemido em seu empenho para acabar com o sofrimento.

O bodisatva percebe com compaixão que os seres, em sua maioria, não têm noção da natureza onírica daquilo que vivenciam, sendo dominados por suas experiências, ao acreditarem que são reais. Quando não sabemos que estamos sonhando, os sonhos nos parecem reais. E, nessa realidade, há dor. A sabedoria do bodisatva faz surgir compaixão incessante e o compromisso intrépido de extirpar as causas e condições do sofrimento de todos os sonhadores.

Chagdud Tulku Rinpoche (Tibete, 1930 – Brasil, 2002)
Para abrir o coração“, I | 9


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