O exemplo budista clássico para ilustrar a vacuidade é o da cobra e a corda. Vamos dizer que há um homem covarde chamado Jack que tem fobia de cobras. Jack entra em uma sala mal iluminada, vê uma cobra enrolada no canto e entra em pânico.
Na verdade, ele está olhando para uma gravata listrada Giorgio Armani, mas em seu terror ele interpretou mal o que vê a ponto de poder morrer de susto — morte causada por uma cobra que não existe verdadeiramente.
Enquanto ele está sob a impressão de que aquilo é uma cobra, a dor e angústia que vivencia é o que budistas chamam de “samsara”, um tipo de armadilha mental.
Felizmente, para Jack, sua amiga Jill entra na sala. Jill é calma, sóbria e sabe que Jack pensa ver uma cobra. Ela pode ligar a luz e explicar que não há cobra, que é na verdade uma gravata.
Quando Jack se convence que está seguro, esse alívio não é nada mais do que o que budistas chamam de “nirvana” — liberação e liberdade.
Mas o alívio de Jack é baseado na falácia de um dano evitado: desde o início não havia cobra e nada para causar seu sofrimento.
É importante compreender que ao ligar a luz e demonstrar que não há nenhuma cobra, Jill também está dizendo que não há ausência de cobra. Em outras palavras, ela não pode dizer: “a cobra se foi agora”, porque ela nunca esteve lá. Ela não fez a cobra desaparecer, assim como Sidarta não criou a vacuidade.
Esse é o porquê de Sidarta ter insistido que ele não poderia varrer para longe o sofrimento dos outros apenas movendo sua mão. Nem sua própria liberação poderia ser concedida ou compartilhada como uma refeição, como se fosse um prêmio. Tudo que ele podia fazer era explicar, a partir de sua experiência, que não há nenhum sofrimento em primeiro lugar — isso é como ligar a luz para nós. [...]
O dharma é as vezes referido como um caminho “sagrado”, embora estritamente falando não há divindade no Budismo. Um caminho é um método que nos guia de um lugar para outro. Neste caso, o caminho nos guia da ignorância até a ausência de ignorância. Usamos a palavra “sagrado” ou “venerável” porque a sabedoria do dharma pode nos libertar do medo e do sofrimento, que é geralmente a função do divino.
Dzongsar Khyentse Rinpoche (1961 ~)
“What Makes You Not a Buddhist”, cap. 3
(já traduzido no Brasil: O que faz você ser budista?)




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