Esperar a morte em toda parte






Não há lugar na Terra onde a morte não nos possa alcançar — mesmo que voltemos a cabeça uma e outra vez perscrutando em todas as direções, como numa terra estranha e suspeita… Se houvesse algum modo de conseguir abrigo contra os golpes da morte — não sou homem de recuar diante dela… Mas é loucura pensar que se pode vencê-la…

Os homens vão, vêm, trotam e dançam, e nem um pio sobre a morte. Tudo parece bem com eles. Mas aí quando ela lhes chega e às suas mulheres, filhos e amigos, pegando-os de surpresa e despreparados, que tormentas de paixão os esmagam, que gritos, que fúria, que desespero! …

Para começar a tirar da morte seu grande trunfo sobre nós, adotemos o caminho contrário ao usual; vamos privar a morte da sua estranheza, vamos frequentá-la, acostumarmo-nos a ela; não tenhamos nada senão ela em mente…

Não sabemos onde a morte nos espera: então vamos por ela esperar em toda parte. Praticar a morte é praticar a liberdade. Um homem que aprendeu como morrer desaprendeu a ser escravo.

Montaigne (França, séc. XVI), “Ensaios”
citado por Sogyal Rinpoche (Tibete, 1947 ~)
em “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer”, 1 | 2


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