Uma experiência de vacuidade






Yongey Mingyur Rinpoche

Yongey Mingyur Rinpoche (Nepal, 1975 ~):

Embora estejamos condicionados a nos identificar com os pensamentos que passam pela nossa consciência em vez de (nos identificarmos com) a própria consciência-estado-desperto, esse estado desperto que é nossa verdadeira natureza é infinitamente flexível. Ele é capaz de qualquer e todo tipo de experiência — inclusive concepções enganadas sobre si mesmo como algo limitado, preso, feio, ansioso, solitária ou medroso.

Quando começamos a nos identificar com esse estado desperto sem tempo, primordial, em vez dos pensamentos, sentimentos e sensações que passam por ele, damos o primeiro passo para ficarmos frente-a-frente com a liberdade que é a nossa verdadeira natureza.

Uma aluna expressou isso desse modo:

“Quando estava passando pelo meu divórcio, me esforcei muito para estar consciente do dor que estava vivendo. Desmembrei-a em pequenos pedaços, observando os pensamentos que vinham à mente e as sensações que apareciam no corpo. Pensei muito na dor que meu futuro ex-marido deveria estar vivenciando e na dor que outras pessoas em nossa situação provavelmente estariam sentindo, e compreendi que não estava sozinha.

E o pensamento de eles estarem passando por isso sem o benefício de examinar sua tristeza, ansiedade ou seja lá o que for, fez com que eu desejasse que eles se sentissem melhores.

Trabalhando com a dor dessa maneira, gradualmente cheguei à experiência — não apenas intelectual, mas um tipo intuitivo de “sim, é assim que é” — de que eu não sou minha dor. O que quer que eu fosse, era uma observadora de meus pensamentos e sentimentos, e as sensações físicas que frequentemente os acompanham. Claro que vivenciei pesar e solidão às vezes; senti um peso em torno do coração ou estômago, questionei se cometi um erro terrível, e desejei voltar no tempo.

Mas ao olhar o que estava passando pela minha mente e corpo, compreendi que havia alguém — ou algo — maior que essas experiências. Esse algo era a “observadora”, uma presença mental que não se perturbava pelos meus pensamentos, sentimentos e sensações, mas que apenas os observava todos sem julgar se eram bons ou ruins.

Então, comecei a examinar a “observadora” e não pude encontrá-la! Não que não houvesse nada ali — ainda havia essa sensação de consciência alerta — mas eu não podia colocar um nome nisso. Mesmo “consciência” parecia não caber, parecia uma palavra tão pequena. Por apenas alguns segundos, talvez mais, foi como se a “observadora”, a observação e aquilo que estava sendo observado fossem todos o mesmo.

Ah, eu sei que não estou dizendo isso bem, mas havia apenas um senso de grandiosidade. É tão difícil de explicar…”

Na verdade, ela explicou muito bem, ou tão bem quanto poderia, já que a experiência da vacuidade não pode realmente ser colocada claramente em palavras. [...]

“Joyful Wisdom”, 2 | 8


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