Preguiça e hiperatividade






B. Alan Wallace (EUA, 1950 ~):

Indolência espiritual é um termo facilmente mal compreendido. A tradição contemplativa cristã da idade média tem um conceito correspondente, que em latim é chamado de acedia, também traduzido frequentemente como “indolência espiritual”. Acredito que esse conceito se aproxima mais do significado do termo budista. A partir do tibetano, contudo, com frequência isso é traduzido como “preguiça”.

Na verdade, a indolência espiritual pode sim surgir como no caso de alguém que não sai do sofá. Você chamaria isso de preguiça, quando está realmente letárgico, como uma lesma — o sentimento pesado do elemento terra. Mas nem toda indolência espiritual se expressa como preguiça.

A indolência espiritual, para pessoas do tipo fogo e ar, se manifesta quando elas são capturadas pelo envolvimento com um projeto depois do outro — quando elas sempre têm algo acontecendo, continuamente aprisionadas por uma atividade mundana depois da outra. Cada vez que elas são pegas em tal atividade incessante, sempre têm a resposta pronta: “Ah, mas isso é realmente importante, porque é para o bem dos seres sencientes, e é virtude”.

Então, a indolência espiritual pode se manifestar em um modo preguiçoso e lento, ou como hiperatividade: pular para lá e para cá fazendo o bem, o que dissipa sua energia. Você reúne mérito — bom karma — mas termina rodando em círculos no samsara.

Em outras palavras, você pode ter algumas experiências muito profundas no Zen, Dzogchen, Mahamudra ou Vedanta, mas você é deixado com nada além de memórias. Depois, você gasta o restante de sua vida correndo de um projeto para outro, sempre capturado pelos pequenos assuntos da vida cotidiana, cuidadosamente cumprindo seus prazos de entrega, até que finalmente o prazo de entrega que você cumpre é o de sua própria morte.

“Stilling The Mind – Shamatha Teachings From Dudjom Linpa’s Vajra Essence”, loc. 2866


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