Instruções que desanimam






Dzongsar Khyentse Rinpoche (Butão, 1961 ~):

Práticas budistas são técnicas que usamos para lidar com nosso auto-acariciamento habitual. Cada uma é projetada para atacar hábitos individuais até que a compulsão de se agarrar a um “eu” seja completamente erradicada. Então, embora uma prática possa parecer budista, se ela reforça o apego a si, na verdade é muito mais perigosa que qualquer prática abertamente não-budista.

O objetivo de um número excessivo de ensinamentos hoje em dia é fazer as pessoas “se sentirem bem”; alguns mestres budistas estão até começando a soar como apóstolos New Age. Suas palestras são inteiramente voltadas para validar as manifestações do ego e apoiar a “nobreza” de nossos sentimentos, coisas que não têm nada a ver com os ensinamentos que encontramos nas instruções essenciais.

Então, se você está preocupado apenas em sentir-se bem, será muito melhor receber uma massagem corporal completa ou ouvir alguma música enaltecedora, ou do tipo “viva a vida!”, do que receber ensinamentos do darma — que definitivamente não foram projetados para te animar. Pelo contrário, o darma foi tramado especificamente para expor suas falhas e fazer você sentir-se horrível.

Experimente ler “As palavras de meu professor perfeito”. Se achar depressivo, se as verdades desconcertantes de Patrul Rinpoche balançarem sua autoconfiança mundana, fique contente. Esse é um sinal de que finalmente você está começando a compreender algo sobre o darma.

Falando nisso, ficar deprimido não é sempre uma coisa ruim. É completamente compreensível alguém ficar deprimido e desanimado quando sua falha mais humilhante é exposta. Quem não se sentiria meio nu em um situação assim? Mas não é melhor estar dolorosamente consciente de uma falha do que totalmente inconsciente dela? Se uma falha em sua personalidade permanece escondida, como você pode fazer qualquer coisa a respeito?

Então, embora instruções essenciais possam temporariamente te deprimir, elas também vão ajudar a desenraizar suas deficiências ao trazê-las para a luz do dia. Isso é o que quer dizer a frase “o darma penetrando em sua mente”, ou como Kongtrul Rinpoche coloca: “a prática do darma dando frutos”, em vez das tais boas experiências que muitos de nós almejamos, como bons sonhos, sensações de bem-aventurança, êxtase, clarividência ou aperfeiçoamento da intuição.

Para Kongtrul Rinpoche, quando um praticante para de considerar uma grande coisa aquilo que costumava dar muito importância o tempo todo, esse é um sinal de que a prática do darma está dando frutos. Por exemplo, antes de se tornar um genuíno praticante, receber um elogio sobre seu cabelo iria te intoxicar de deleite, enquanto a mera sugestão de que ele estava um pouco menos que perfeito imediatamente te jogaria na espiral descendente da depressão.

Nem chegar a reagir em qualquer uma das situações é um sinal de que a prática está dando frutos e que você está se tornando um praticante autêntico do darma, e isso é muito melhor do que ter um milhão de elogios, sonhos encorajadores ou sensações de êxtase.

“Not For Happiness”, loc. 254


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