Como escolhemos viver nossa interdependência






17º Karmapa (Tibete, 1985 ~ ):

Normalmente, acreditamos que precisamos de tantas condições e coisas para sermos felizes. Talvez, no entanto, na verdade seja muito simples. Isso repentinamente surgiu para mim um dia em que estava dando uma volta no monastério. Era uma dia agradável e havia uma brisa suave. Isso disparou em minha mente a atenção à minha respiração.

Tornei-me consciente desses simples fatos: eu estava respirando, e isso não era algo que dependia apenas de mim. Dependia da presença de oxigênio no ar — e mil etapas anteriores tiveram que acontecer para que o oxigênio estivesse lá para mim quando eu precisasse de cada respiração.

Fui atingido por um completo maravilhamento com esse pensamento. Eu sabia que não poderia produzir oxigênio por mim mesmo. Ainda assim, minha própria sobrevivência dependia de ele estar disponível para mim a cada respiração. Já respirei incontáveis vezes, e se em apenas uma delas não houvesse oxigênio, minha vida poderia ter terminado. No entanto, ali ele estava e sempre esteve. Isso me preencheu com um senso de bem-estar completo.

As coisas mais ordinárias podem ser tão maravilhosas. Nós quase nunca voltamos nossa atenção para as condições básicas de nossa própria existência, mas elas estão constantemente presentes e gratuitamente disponíveis. Apenas lembrar disso a qualquer momento pode trazer de volta o sentimento de alegria que senti ali.

Não precisamos comprar ou possuir nada para sermos felizes. A qualquer momento, podemos acessar esse sentimento de alegria. A mesma interdependência que faz nosso consumismo ser tão destrutivo para o ambiente, também pode fazer o ambiente natural ser uma fonte de alegria e maravilhamento constante para nós, sem precisarmos de nada mais que uma lufada de ar. Depende apenas de como escolhemos viver nossa interdependência.

Imagino que no final tudo se resume à nossa atitude. No momento em que paramos de permitir que a cobiça nos faça correr atrás daquilo que não temos, e de tomar como garantido o que já temos, podemos ter um profundo e pleno sentimento de apreciação. Nós realmente já temos tudo que precisamos. A inesgotável prosperidade do contentamento está ali esperando. Podemos encontrar felicidade ilimitada simplesmente respirando.

“The Heart is Noble”, cap. 5


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