Autonomia na vida






[…] Se queremos morrer ou não, esse é o nosso destino; e sobre isso não temos nenhum controle. Não podemos controlar como morreremos. Garanto que certamente não tenho tal controle. Não terei controle sobre minha morte, e suspeito ser improvável que vocês terão controle.

Chego a essa conclusão baseado em quê? Olhem para nossas vidas cotidianas. Em que medida temos algum controle sobre os três venenos do apego, raiva e ilusão? Esses venenos não dominam nossas ações dia após dia? E mesmo se temos algum controle sobre nossas mentes e atividades durante o dia, que controle temos à noite no estado de sonho? Temos absolutamente algum controle?

Se não temos controle de dia ou de noite, baseados em que podemos imaginar ser possível ter algum controle quando esta vida tiver acabado e nos encontrarmos vagando no estado intermediário? Isso é verdade para todos nós. Igualmente, não temos controle.

Não temos nenhum tipo de autonomia sobre nossas vidas, e há muitas coisas que podem ilustrar isso por aí na sociedade humana. Por exemplo, as pessoas se viciam em fumar cigarros mesmo sabendo que isso causa câncer de pulmão assim como vários outros tipos de distúrbios. Seus amigos e parentes até pedem: “Por favor pare, queremos que você tenha uma vida longa”; e eles até podem desejar parar, mas não têm controle. De modo parecido, podemos ficar obcecados com o álcool, e as pessoas dizem: “Ah, por favor, pare de beber. É tão prejudicial”. Talvez a pessoa queira parar, mas a força de vontade não está ali. O controle não está ali.

Ao se aproximar do Dharma, encontramos pessoas que dizem: “Ah, vou praticar o Dharma”. Contudo, quando chega a hora, não praticamos. Apenas falamos sobre fazer isso quando condições futuras forem mais propícias; e no meio tempo estamos terrivelmente ocupados.

Não estou apenas apontando o dedo para vocês; sinto que estou exatamente na mesma situação. Além disso, tenho alunos que disseram há 20 anos ou mais: “Bom, a primeira coisa é garantir minha situação financeira. Vou juntar dinheiro, e então posso fazer outras coisas”. Décadas passaram e estou vendo essas pessoas. De modo geral, estão na mesma situação financeira de antes. Não conseguiram a garantia que procuravam. E o que fizeram nesse meio tempo foi acumular muita desvirtude.

Gyatrul Rinpoche (China, 1924 ~)
“Natural Liberation”


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